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Sem mais uma medida para nos situarmos no mundo como corpos ocupando um lugar, uma perda de contato que atua de forma a anular a relação com o próximo e a partir disso, conosco, é percebida. A busca pela identidade se trata, portanto, da busca pela medida das coisas.
O design pensado como um método de ação age de forma a reaproximar o autor de seu objeto.
Essa noção é pensada como referência nos experimentos do Grupo TaTO a partir do ponto em que eles possibilitam uma incorporação da ação, via construção de seus objetos. Sobre essa estratégia de ação, paira a hipótese de que o contato estabelecido entre o autor e seu objeto mediados pelo seu corpo na ação de construir, contribua para a sua formação ao enxergar o processo de construção como meio e não como fim. O que se pretende é uma momentânea diminuição da distância estabelecida entre o autor de seu fato espacial através da experimentação e vivência de práticas corporais.
Calcado na ação como veículo construtor da experiência percebida, o TaTO procura trafegar na invenção do desenho das condições antes do que nas condições de desenho. O contato com as etapas de construção de um fato espacial, sua concepção e execução, pontua o discurso de quem age, define um fato, um acontecimento espacial e revela seu autor como sujeito que inventa e, ao mesmo tempo, é constantemente inventado.

Eduardo Moreira

Equipamento para Barriga,
o lavador de carros

O lavador de carros, Barriga, necessitava de um equipamento de transporte para seus utensílios de trabalho. Um carrinho de feira utilizado em um trabalho do Curso de Arquitetura do Unileste foi doado e algumas adaptações foram feitas em sua estrutura de forma a atender o programa de necessidades identificado. Uma plataforma serviu para apoiar seu balde e um aspirador de pó e uma sacola foi adaptada ao conjunto para portar pequenos utensílios como cera, bucha e escova.
Durante seu horário de trabalho, o lavador jogava fora toda a água do balde utilizando-o como assento para almoçar, então uma cadeira dobrável foi adaptada ao conjunto para atender a essa demanda relatada. A portabilidade do conjunto permite o deslocamento do equipamento para ser guardado em uma garagem nas proximidades de onde o lavador trabalha.

Equipamento para Eda,
a vendedora de passes de ônibus (vale-transporte)

Eda necessitava de um equipamento portátil para lhe auxiliar em suas funções como vendedora de passes de ônibus no centro de Coronel Fabriciano. Ela comentou sobre sua dificuldade para montar sua reduzida infra-estrutura de trabalho, uma pequena mesa e uma cadeira que eram guardadas numa loja próxima após seu horário usual de trabalho.
Um equipamento de trabalho mais leve foi proposto. Ganhamos uma cadeira metálica dobrável da cantina da escola e dois rodízios foram adaptados para facilitar seu deslocamento. No assento da cadeira foi anexada uma rede de elástico com presilhas fixadas nas costas do assento. Um braço metálico foi acoplado. Uma bolsa de velcro foi produzida para facilitar o manuseio de passes e dinheiro durante as vendas, cujos compartimentos eram destacáveis e adaptáveis às necessidades diversas, podendo ser colocada na rede presa ao assento da cadeira ou levada para o local onde era guardada.

Equipamento para Ivanildo,
o verdureiro

O vendedor de verduras, Ivanildo, montava seus cavaletes de madeira e uma chapa de compensado forrada por uma lona plástica e arrastava quatro caixotes contendo verduras e legumes que passavam a noite em uma garagem próxima ao seu local de trabalho. Assim todas as manhãs ele montava sua banca expositiva. Devido a uma deficiência física seu braço e perna direitos eram pouco desenvolvidos, dificultando sua rotina de trabalho.
Um equipamento expositor foi elaborado e construído com o objetivo de facilitar sua atividade. O equipamento possui rodas para facilitar seu deslocamento; duas abas laterais e uma frontal para exposição dos produtos são articuladas através de um sistema de montagem que incorporou a deficiência motora de Ivanildo. Desta forma, ele pode armar as bancadas com o auxílio de apenas um braço. O corpo do equipamento armazena as caixas que são engavetadas na estrutura de metalon. Crispim, o serralheiro que auxiliou a execução de alguns detalhes, guardava alguns botijões de gás de geladeira em sua oficina: um destes foi adaptado ao conjunto e, através de uma bomba de pneu de bicicleta, o verdureiro bombeia com o pé ar para o botijão, que já contendo água em seu interior, se transforma em um compressor possibilitando a irrigação dos produtos através de uma mangueira perfurada.
Ivanildo já comentou que vai diversificar as vendas, já que o carrinho sustenta produtos mais pesados que as verduras.

Carrinho para o
Morro do Papagaio

A Nossa Sra. da Rua é uma associação nascida em 2003 quando da constituição de um projeto que pretendia abordar territórios sócio-culturais marginalizados como a rua, zonas de prostituição e favelas, na intenção de construir situações onde a interlocução e a co-autoria de produtos e produções fossem, legítima e eticamente, estabelecidas. De 2003 a 2005, o projeto Moda permitiu à Associação experimentar no Morro do Papagaio (favela na zona sul de Belo Horizonte) sistemas criativos que entrelaçassem as referências dos diferentes sujeitos envolvidos e que tivessem, como resultante, objetos vestíveis que encarnassem e representassem essa parceria diante dos outros.
A inserção do Grupo TaTO nesse trabalho se deu a partir de um interesse mútuo, a questão da interlocução entre diferentes sujeitos para a produção de produtos em um regime co-autoral. Essa semelhança de objetivos convergiu as ações dos dois grupos para a construção de uma nova localização dentro do morro, um produto material[ização] da possível parceria.
Uma infra-estrutura que auxiliasse na íngreme e estreita subida, com as sacolas e bolsas cheias de botões, linhas, retalhos, amontoadas nos braços, matéria-prima para a construção coletiva e co-autoral do projeto Moda.