Prótese Habitacional

Fatos:
- o crescimento da população da favela é duas vezes maior que o da cidade formal;
- a maioria dos projetos de intervenção em favelas é ineficaz;
- a favela é uma realidade urbana e social.

Tendo em vista essas e muitas outras razões, o projeto Prótese Habitacional (PH) testou novas estratégias de intervenções em favelas, visando a segunda pele do ser humano: a moradia. Com a proposta de complementar os Planos Globais realizados pela Prefeitura de Belo Horizonte, a PH trabalha em moradias que, mesmo depois da atuação da Prefeitura, continuam precárias.
Os 3 primeiros projetos foram feitos para sanar necessidades de uma vila específica: Vila Ponta Porã, localizada no Bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte. A vila tem 400 famílias (dados de 2004) e características comuns a outras favelas: crescimento aleatório, condições insalubres, ocupação desenfreada. 75% de sua área é plana, a maioria das casas tem mais de 1 pavimento e estão em padrão “regular”.
Para uma atuação mais eficaz da PH, foi feita uma grande pesquisa de percepção das táticas dos moradores desta vila. Durante 2 meses a vila foi intensamente freqüentada, com direito a vários cafezinhos com biscoito, muita atenção e orientação por parte dos moradores e acolhimento na casa da Dona Bia. Todo esse apoio foi fundamental para a produção de um trabalho mais eficaz.
Percorrendo becos e vielas, analisando o espaço público, vê-se que a proximidade com os vizinhos é que delimita as passagens, que por sua vez ditam as condições de acessibilidade às casas. A ocupação vertical funde espaços livres, ou seja, se há possibilidade de construir mais um ambiente ou ampliar o existente em um espaço sem dono, isso é o que será feito. O fato de ser uma vila plana caracterizou os terraços das casas como integração direta aos vizinhos, onde a distância de “um pulo” é literalmente atingida. A ampliação lateral do segundo e terceiro pavimentos cria uma cobertura nas passagens públicas, as quais ficam sem iluminação natural adequada.
Visitando e fazendo levantamento arquitetônico das casas, a análise do espaço privado mostra grandes peculiaridades com relação à cidade formal. Muitas vezes o tamanho do cômodo parece ter sido determinado pelo tamanho do mobiliário. As escadas parecem impossíveis de subir ou descer, embora idosos e crianças façam isso com destreza. Um só ambiente abriga várias funções (cozinha, sala, quarto, banheiro, etc.).
A inexistência de uma área para varal faz com que as roupas sejam estendidas nas vielas em área pública, sendo respeitada, ou não, a propriedade do outro. Essas táticas de ocupação e várias outras fazem parte do cotidiano dos moradores de favelas, que produzem sua própria moradia com recursos que estejam disponíveis. Conhecer as pessoas, seu cotidiano, suas atividades, suas necessidades e seus sonhos, foi a ferramenta fundamental para entender seus modos de vida e propor melhorias que sejam eficientes para cada caso. Isso é, fazer uma arquitetura pública que respeite as especificidades de cada modo de viver, as quais são conseqüências da realidade de cada ser humano.
A intenção da PH foi unir em um projeto a estratégia de atuação de profissionais e a tática de construção dos moradores, possibilitando que eles mesmos construam a melhoria de suas casas, com materiais alternativos e reciclados, de fácil obtenção. Para melhor adequar o projeto à realidade da Vila Ponta Porã, foram listadas patologias das casas, através de observação profissional e “queixas” dos moradores. Assim, 3 projetos foram escolhidos de uma longa lista de patologias:
Prótese de Ventilação:

A proximidade das casas e a ocupação de todo espaço vazio (horizontal e verticalmente) fazem com que não haja circulação de ar satisfatória nos ambientes internos das casas.
A maioria dos ambientes não tem janelas, causando muita umidade, calor e mofo, o que facilita doenças respiratórias e infecções (presentes na maioria das crianças da vila).
A Prótese de Ventilação foi trabalhada em uma área da vila (um “quarteirão”) nomeada como Célula 1, composta por 13 casas muito próximas e com sérios problemas de circulação de ar. Para atender todas as casas, foi projetado o percurso do duto horizontal, que tem a finalidade de captar o ar quente dos ambientes e encaminhá-lo aos dutos verticais. Os dutos verticais foram projetados com uma altura específica para aumentar a velocidade do ar que está subindo. Foram propostas pequenas aberturas nas fachadas das casas que estavam voltadas para as vielas, facilitando a entrada de ar e a sua renovação. Todo o processo foi calculado e dimensionado para aumentar a Taxa de Renovação de Ar por Hora (rph), melhorando a situação atual.
O sistema de ventilação funciona naturalmente, sem a necessidade de exaustores ou ventiladores para auxiliar a circulação do ar. Foram utilizados tambores metálicos nos dutos verticais, e nos dutos horizontais papelão internamente para isolamento acústico e ozazoni (placa de metal) externamente para proteção contra incêndio.

Cálculo de Eficiência das Torres

Geral:
Velocidade de saída do ar: v=0,135
?(H x ?t)
v=0,135 ?(12m x 5).
v=1,04 m/s.
Seção do duto: 60x40=0,24 m.
Vazão do ar: v x a=1,04m/s x 0,24m.

Torre 1:
Vazão/nºde casas=837 m/h .
4 casas=209,25 m/h por casa.
Média da área das casas A,B,C e D: a=14,68m e h=2,60m - volume total: 38,16 m.
Taxa de Renovação por Hora: 209,25/38,16=5,48 rph.

Torre 2:
Vazão/nºde casas=837 m/h .
3 casas=279 m/h por casa.
Média da área das casas E, F e G: a=26,25m e h=2,60m - volume total: 68,25 m.
Taxa de Renovação por hora: 279/68,25=4,10 rph.

Torre 3:
Vazão/nºde casas=837 m/h.
2 casas= 418,5 m/h por casa.
Média da área das casas H e I: a=26,25m e h=2,60m - volume total: 68,25 m.
Taxa de Renovação por Hora: 279/68,25=
4,10 rph.

Prótese de Iluminação:

A falta de iluminação natural dentro das casas é conseqüência das mesmas características descritas na Prótese de Ventilação: a proximidade entre as casas impede que a luz solar entre. Isso onera intensamente as contas de luz elétrica e prejudica as condições de salubridade da casa. Esta prótese foi feita na Célula 2.
O processo da Prótese de Iluminação começa na cobertura da casa, onde é instalada uma antena parabólica inutilizada, revestida de cacos de espelho, que trabalha como um espelho côncavo, captando a luz solar para um foco. A partir daí, esse foco de luz caminha por dutos feitos de caixas Tetra Pak, sendo refletido por espelhos posicionados a 45º, onde é mudada a direção do percurso. Os destinos finais do foco de luz são os ambientes que serão iluminados. A saída de luz se faz através de garrafas pet transparentes cheias de água, para difundir o foco. As garrafas receberam um acabamento feito de arame como uma luminária, onde podem ser colocadas placas de vedação quando a luz for desnecessária. Os cálculos feitos para comprovar a eficiência do projeto mostram que essa prótese pode gerar mais luz que as lâmpadas convencionais.

Cálculo Aproximado de Eficiência das Luminárias

Experiência feita com protótipo para calcular a perda de lux em cada reflexão:

700 lux no foco de luz da lanterna
650 lux após reflexão do espelho
perda por reflexão: 7,15%

Comparação com a luz solar:

dia limpo, com luz direta=60.000 a 100.000 lux
dia encoberto, com luz difusa= 5.000 a 20.000 lux

Dia limpo:

a média de perda por reflexão, no caso, é de 5.720 lux, como são 12 reflexões na trajetória: 68.640 lux de perda ao todo.
a última luminária receberá 11.360 lux, sem considerar os atritos e perdas no caminho.
com perdas (2%)=11.130 lux.

Dia encoberto:

a média de perda por reflexão, no caso, é de 899,75 lux, como são 12 reflexões na trajetória: 107,25 lux de perda ao todo.
a última luminária receberá 1.775 lux, sem considerar os atritos e perdas no caminho.
com perdas (2%)=1.739,5 lux

Prótese de Varal Coberto:

A idéia de fazer um projeto de varal foi inusitada e veio como exigência dos próprios moradores. Esta prótese também foi feita na Célula 1, onde a falta de espaço interno nas casas impossibilita a colocação de um varal em uma área apropriada. Geralmente as casas têm muitos moradores, o que ocasiona um grande fluxo de roupas a lavar.
A secagem, então, se faz em instalações improvisadas, penduradas nas vielas públicas, onde há uma maior circulação de ar e espaço livre.
Porém, nos dias de chuva as roupas são colocadas dentro das casas, também em improvisadas instalações, molhando móveis, aparelhos elétricos, adornos, etc. O varal proposto se instala onde há espaço: é chumbado acima da janela (para facilitar a acessibilidade), do lado de fora da casa. Uma viga metálica (resto de construção civil) faz a sustentação, de onde sai o eixo vertical de rotação. Presos nesse eixo, tubos de PVC são os suportes para colocação das roupas. O usuário utiliza o varal pela janela, rotacionando os tubos na medida em que vai os preenchendo com as roupas.
Em dias de chuva, um sistema de vedação feito por lona (que foi inutilizada), fecha a parte superior e inferior do varal, protegendo as roupas.