MSG: Mutirão São Gabriel

Ambientes digitais imersivos, representação e projetos participativos.

A discussão sobre projetos de habitação de interesse social passa por um momento crucial no país. Os processos de construção em regime de mutirão se popularizaram e se tornaram uma alternativa viável para combater o déficit habitacional brasileiro. Ao mesmo tempo, os avanços recentes na teoria da arquitetura e a popularização de tecnologias digitais de representação abriram oportunidades de se ampliar o escopo de discussão de praticamente todos os tópicos da produção arquitetônica, incluindo aí a produção de habitação de interesse social. Especificamente com relação aos processos de construção em regime de mutirão, há um paradoxo teórico/histórico referente à representação arquitetônica que se evidencia e merece ser abordado se quisermos avançar na exploração do potencial desses processos. Este paradoxo se dá devido ao uso da representação arquitetônica em sua forma atual, que, derivada das técnicas perspectívicas surgidas na Renascença, enfatiza a especialização e a fragmentação das etapas do processo de produção arquitetônica. Este sistema de representação, que tem como premissas a separação e distanciamento dos atores do processo construtivo, é o mesmo sistema usado nos processos de mutirão onde a abordagem é exatamente inversa: há ali uma coincidência do construtor e do morador, e em se tratando de projetos participativos, há uma coincidência também do planejador. Certamente que há ainda a presença auxiliar do técnico nos processos de mutirão, mas indubitavelmente os processos de mutirão se pautam por uma busca de integração dos atores de produção da habitação. Ao que tudo indica, este paradoxo tem sido mantido por razões operativas, em outras palavras, pela ausência de um instrumental que viabilizasse uma outra abordagem mais integradora e menos fragmentária.

Técnicas perspectivas e a produção da arquitetura
Para compreendermos toda a extensão deste paradoxo, é importante detalharmos um pouco mais este cenário e lembrarmos que a origem do profissional arquiteto como nós o conhecemos hoje é associada à “invenção” da perspectiva. Na nossa prática habitual o arquiteto concebe o edifício a priori em seu escritório, traduz os conceitos da edificação em desenhos e envia estes desenhos ao canteiro de obra. Os trabalhadores da construção civil, então, interpretam os desenhos e seguem suas indicações para a construção do edifício, que supostamente é uma réplica precisa do edifício que o arquiteto havia concebido em sua mente. Esta cadeia linear, embora não corresponda totalmente à complexa realidade da prática cotidiana, é o processo ideal almejado pelos arquitetos, planejadores e incorporadores.
Esta idéia de que os arquitetos estariam separados do canteiro de obras e usariam desenhos para comunicar informações precisas aos construtores só foi viabilizada pela disseminação das técnicas de representação surgidas com a invenção da perspectiva científica durante a Renascença, que trouxe a possibilidade de que as três dimensões do espaço pudessem ser representadas com precisão num plano bi-dimensional. Esta representação científica, desenvolvida e consolidada ao longo dos últimos 500 anos, configurou-se como um sistema de convenções extremamente normatizado e, de fato, representou um aumento da objetividade na representação. Esta objetividade viabilizou um processo de produção arquitetônico calcado em procedimentos mais racionais, distantes da produção intuitiva e empírica do medievo. Porém, o custo desta objetividade foi uma ruptura das etapas do processo de produção arquitetônica, com um conseqüente distanciamento dos leigos das instâncias de tomada de decisão. Em outras palavras, um afastamento das pessoas sem domínio técnico das convenções.
De fato, a compreensão deste desenvolvimento dos sistemas de representação é de fundamental importância para o desenvolvimento dos processos de projeto participativo, especialmente aqueles em regime de mutirão. Os projetos participativos, na verdade, têm feito um uso limitado dos sistemas de representação convencional devido às premissas de separação entre os vários agentes e etapas do processo de produção arquitetônica. Esta avaliação se mantém verdadeira até mesmo se considerarmos os arquitetos que tem buscado avançar a questão do projeto participativo, já que eles continuam usando um sistema de representação que se prima por obstruir aquilo que eles buscam atingir – a vinculação entre os momentos de invenção, de representação, de construção e de habitação da arquitetura. Assim, no instante em que estas premissas são re-arranjadas e os mutirões propõem uma articulação diferente dos agentes e das etapas, a representação convencional, que viabilizou toda a nossa cultura tecnológica, perde a sua eficiência ou pelo menos deixa de contribuir com todo o seu potencial operativo.
No entanto, com o advento da computação gráfica uma série de mudanças na prática arquitetônica vem acontecer, em função da possibilidade de manipulação extrema da representação, indo desde a produção de imagens de apresentação até à feitura dos documentos gráficos que constituem os projetos de execução das obras. Mas o uso das tecnologias da informação e comunicação pelos arquitetos não aponta apenas para uma mudança nos sistemas de representação e visualização dos objetos arquitetônicos. Na verdade, ele traz possibilidades de mudanças radicais no âmbito dos processos criativos e mesmo na arquitetura enquanto espaço construído.
Uma das mais instigantes dessas possibilidades são os experimentos com ambientes digitais de imersão, onde as representações se tornam interativas e podem ser manipuladas em tempo real através de gestos captados por sensores de movimento. Derivados dos experimentos de realidade virtual, os chamados ambiente digitais de imersão, são constituídos por um ambiente físico em cujas superfícies são projetadas imagens computadorizadas com as quais o usuário pode interagir através de gestos. A manipulação das imagens ocorre através de um sistema de reconhecimento de gestos captados por uma câmera digital ou outro aparato ligado ao computador. Tais ambientes podem ainda se caracterizar como espaços híbridos onde há uma superposição das características do espaço físico e do ambiente virtual projetado. Dependendo de suas características, estes ambientes são conhecidos como CAVE, ou de acordo com a proposta do IBPA (Instituto Brasileiro de Performance Arquitetura), podem ser caracterizados como Tenda Digital ou TENT (Technological Environment for Negotiated Topology).
De qualquer forma, estas novas possibilidades acenam para uma mudança paradigmática – a inclusão do tempo e a inclusão do corpo/usuário no ambiente da representação. Isto nos traz possibilidades de delineamento de um processo de projeto calcado num amplo e efetivo engajamento dos participantes. Nessa mudança paradigmática, a representação arquitetônica pode deixar de ser um elemento de comunicação baseado na ruptura do encadeamento das etapas projetivas e voltar a ganhar um papel de articulação e continuidade, se tornando inclusive um instrumento precioso na efetivação do caráter dinâmico e aberto do espaço arquitetônico. Nessa “perspectiva”, os processos de construção em mutirão colaborariam para uma mudança significativa na própria idéia de arquitetura.

José dos Santos Cabral Filho

MSG – Mutirão São Gabriel

A pesquisa “Mutirão São Gabriel: tecnologias avançadas de informática para novas formas de autogestão”, financiada pela FINEP e coordenada pela Profa. Maria Lúcia Malard, buscou desenvolver estratégias de uso das tecnologias da informação visando expandir o caráter participativo de projetos em mutirão, focando a democratização e a inclusão digital das comunidades. Pesquisadores da Escola de Arquitetura da UFMG, juntamente com a Associação de Moradores Sem Casa do Bairro Betânia e Regiões de Belo Horizonte (ASCA), desenvolveram ao longo de 2001 e 2002 uma série de workshops onde os “Sem Casa” receberam treinamento no uso de técnicas avançadas de informática, que foram usadas para o desenvolvimento de um projeto habitacional a ser construído em regime de mutirão.