Espaços Colaterais

A arquitetura se tornou uma prática essencialmente reativa e o arquiteto um reacionário profissional. Uma excursão rápida pela paisagem atual (publicações, encontros, sites, exposições e a própria cidade) pode ser uma experiência aterradoramente útil para a compreensão da escritura arquitetônica do presente. Sub-aproveitados na cadeia da indústria da construção, excluídos da agenda cultural e distanciados dos desafios reais das cidades brasileiras, os arquitetos contemporâneos agem como técnicos obedientes, pragmaticamente treinados em escolas incapazes de vislumbrar modelos alternativos de ação no mundo. E a arquitetura subsiste como uma profissão refém de arcaicas tipologias disciplinares, clientes conservadores, interesses excusos e utopias privadas. Sustentada pelo espólio de um passado glorioso e pela frivolidade das celebridades instantâneas.
Mas pode ser que os arquitetos se identifiquem sinceramente com as estruturas e as demandas da sociedade e aceitem o papel secundário que lhes cabe na agenda política e cultural contemporânea. Ou talvez tenha sido sempre assim e tenhamos nos iludido com os personagens heróicos e com o ímpeto revolucionário de um modernismo ainda fresco. E, apesar das particularidades sociais, tecnológicas, geopolíticas e ecológicas do presente, emulamos inofensivamente o repertório formal das vanguardas históricas e seus desdobramentos tropicais tardios com a mesma naturalidade com que descartamos intenções prospectivas de novas formas para a vida.
A aderência aos “ismos” foi sempre mais sedutora e fácil que a tarefa espessa de entendimento das condições em que são cultivados. Além disso, para o desenho atual, o modernismo é uma agenda bastante versátil e com ótimo custo-benefício, desacreditando quaisquer incursões a territórios ainda não demarcados de um presente indeterminado política e esteticamente.
Um consenso que evita a compreensão crítica da arquitetura moderna como um projeto político engenhoso, cooptando-a simplesmente como um repertório formal inofensivo. Um jogo de elisão do tempo que, no entanto, não oculta a sintomática insignificância atual de uma prática que, quando ainda imersa no imaginário de oposição dualista moderno – “arquitetura ou revolução” – se propôs ao agenciamento planejado da vida cotidiana nos seus diversos âmbitos. E se esse projeto moderno de convergência dos campos criativos e sua mediação com o setor industrial (eternizado na pedagogia da Bauhaus) segue incompleto e aguardando atualização, suas fraturas explicitam ainda hoje a crônica incapacidade dos arquitetos de transformarem, autonomamente, suas idéias em espaços concretos.
Resta, pois, a condição duvidosa de “resolvedores de problemas” autorais, respondendo passivamente a programas políticos, econômicos e domésticos alheios. Ou a reinvenção da própria noção de arquitetura e seu lugar no mundo contemporâneo, a partir da observação aguda do presente e da construção de modelos autônomos de ação dentro do real.
Mas não mais através de modelos universais e totalizantes, agendas corporativas, programas ilusórios, coletividades utópicas ou convenções de condomínio. Pois este já é o mundo que herdamos e que nos abarca cotidianamente. Essa monocultura desoladora, acúmulo extensivo de arquiteturas indiferentes aos arquitetos e que pateticamente ainda não aprendemos a habitar.
Uma arquitetura que não é, portanto, um projeto coletivo ou ideológico de todos os arquitetos, urbanistas e simpatizantes, mas uma proposição pessoal e uma escolha de posicionamento subjetivo dentro da realidade particularmente percebida e vivida. Porque afinal, enquanto perduram os estereótipos que nos permitem diagnósticos generalizantes, também emergem cotidianamente muitas outras arquiteturas possíveis, invisíveis aos olhos nus, libertadas da inércia tectônica e da versão idealista e teleológica de modernidade. Práticas colaterais que modelam micro-universos viáveis, negociam os limites disciplinares e expandem a sua rede social de alcance. Espaços colaterais que engendram imaginários políticos e constroem possibilidades de coexistência.
Espaços que descendem e habitam a mesma modernidade da qual são perpetuamente excluídos. Que são as consequências sensíveis do abstrato projeto moderno ao mesmo tempo em que operações reais no interior de suas estruturas remanescentes. Re-desenhos das relações entre sujeitos e ambiente.
Espaços que são campos de escolhas táticas e projetos íntimos de modernidade, permeáveis às possibilidades óbvias de habitar o cotidiano.
Espaços que são iniciativas deliberadas, sedimentadas na observação do presente e do próximo, desenvolvidos prospectivamente e desdobrados em ações concretas.
Espaços que são co-laboratórios sem precedentes da convergência transversal de diversos agentes formais, saberes ambientais, regimes estéticos e práticas empreendedoras (professores, pesquisadores, “ongueiros”, empresários, artistas, arquitetos, designers, engenheiros, ecólogos, geógrafos, produtores culturais, etc).
Espaços que naturalizam a transposição da contemplação em uso reivindicada pela arte contemporânea, ao mesmo tempo em que tornam habituais seus experimentos transitórios e “museificados” em uma pedagogia da rotina tipicamente arquitetônica. Afinal o que são os eco-sistemas relacionais, essas micro-comunidades e coletividades instantâneas administrados pelos artistas se não arquiteturas fora da arquitetura?
Espaços que são empreendimentos colaborativos “armados” como incorporações solidárias, produções autonômas e não solicitadas. Custam para realizar e manter, requerem planos de negócios eficazes, estratégias pragmáticas e a generosidade de terceiros.
Espaços que são resultado de muito trabalho e provavelmente algum ócio, apesar da dificuldade de discernir a proporção exata.
Espaços que subvertem a lógica mercantil dominante investindo nas potencialidades de infiltração das marcas ou produtos na vida cotidiana, no mercado e nas redes sociais de consumo.
Espaços que são protocolos de acesso a experiências de hiper-localidade e de vizinhança inéditas, aproximando desconhecidos e catalizando relações imprevisíveis.
Espaços que não têm escala, simplesmente porque não estão presos às restrições dos planos, mapas e desenhos e porque estão em escala humana. Ou são imateriais.
Espaços de protagonistas diversos, autoria compartilhada e flexível, onde se confundem colaboradores, sócios, convidados, produtores, participantes, habitantes, curiosos, testemunhas, espectadores, destinatários, usuários, passantes, consumidores, vizinhos.
Espaços que não têm proprietário porque não se trata de propriedade particular mas de interesse público. Essa categoria indefinida, difícil de cartografar, intrinsecamente informal e que não está dada a priori mas que sempre reconhecemos como tal.
Espaços que problematizam a conflituosa geografia contemporânea entre o público e o privado, dissolvendo temporariamente os seus limites, denunciando a precariedade das fronteiras e a volatilidade política das barreiras.
Espaços que nascem pontuais mas são raciocínios sistêmicos. E, uma vez que emergem de e por entre estruturas genéricas (e provavelmente globais), estão sempre à espreita da próxima oportunidade.
Espaços que estão por toda parte e em cada agenda pessoal.

Wellington Cançado