Cidades na Cidade propõe uma estratégia que vê, nos desequilíbrios sociais das grandes cidades, oportunidades de projeto. Cidades na Cidade se caracteriza pela aproximação de dois extremos que se repelem.
O primeiro extremo é bem conhecido dos arquitetos e abrange a visão dos produtores da cidade: as construtoras, as imobiliárias e as grandes empresas. É o lado da especulação imobiliária, das forças que determinam as inclusões e exclusões urbanas e que não está diretamente ligado às ocupações informais.
O outro lado consiste nas favelas. Território escolhido para investigar melhor a fronteira entre essas duas cidades, entre o formal e o informal, elas não entram aqui como um setor marginalizado ou excêntrico, mas como uma parte indissociável de um todo que só será estudado junto às forças do mercado imobiliário. Tal aproximação é o nosso ponto de partida; o que move um estudo onde compensações e contrapartidas aproximam classes sociais antagônicas do cenário urbano.
Os objetivos do projeto baseiam-se nas potencialidades específicas da cidade fragmentada - repartida entre condomínios e favelas, o “asfalto” e a clandestinidade - de uma forma simultânea que podemos resumir como:
Investigar as possibilidades de uma intervenção em favela que seja vinculada ao poder privado (e não ao público, como geralmente acontece), explicitando contrastes sociais como uma saída para o problema: choques de classes sociais que poderão mostrar outras possibilidades de intervenção, onde melhorias sociais e o capital imobiliário convergem em uma mesma abordagem.
O processo de favelização se tornou grande demais para ser resolvido por programas públicos de melhoria urbana, e por isso urge a concepção de novas formas de intervenção na cidade informal. É na aproximação radical entre condomínios e favelas que podem estar escondidas alternativas para o orçamento limitado das prefeituras das grandes cidades. Seja em São Paulo, Belo Horizonte ou Caracas, os favelados são detentores de grandes áreas para especulação. Se para a iniciativa privada fossem cedidos terrenos hoje ocupados pela favela, mecanismos de contrapartida entre construtoras e favelas gerariam projetos que englobariam moradores “inimigos”. Em princípio, a estratégia que testamos aqui é simples: empresários e favelados conciliando soluções possíveis, terrenos para prédios em troca de intervenções sociais na favela. Ou seja, condomínios e favelas sendo contemplados num mesmo projeto.

Vila JK
Situada em Belo Horizonte, a antiga favela Acaba Mundo está inserida na área de entorno do Tombamento da Serral do Curral, que é um instrumento de preservação ambiental. Ou seja, a favela está dentro das imediações de uma Serra considerada patrimônio natural e simbólico da cidade. Ao sul, ela é cercada pelos já saturados bairros Sion, Anchieta e Mangabeiras, todos de classe média-alta / alta. Nas outras três direções, ela é envolvida pela área tombada da Serra, de propriedade de uma mineradora ainda em atividade. Essa área tombada que envolve a favela é um grande vazio absolutamente não ocupável devido à legislação de tombamento, que impede qualquer densidade.
A grande questão passou então a ser a maneira de inserir equipamentos, sejam eles públicos ou privados, na região tombada da Serra, incluindo aqui os interesses da Vila JK.

Serra do Curral
No nosso entendimento, a incorporação da área tombada da Serra do Curral para a cidade deve obedecer ao conceito de Parque Urbano, onde a conservação ambiental e a ativação social por meio de equipamentos de uso público deverão permitir o uso da Serra. Pretendemos, em outras palavras, tornar pública uma área verde privada, ainda não ativada e não utilizada pela população.
Sabendo que essa área no entorno da favela Acaba Mundo pertence ao setor privado, e sabendo que ela está dentro do limite de tombamento da Serra, uma intervenção arquitetônica aqui deve passar por uma estratégia de ocupação onde estariam conciliados os interesses 1. dos proprietários dessa área tombada; 2. dos ambientalistas; 3. do poder público; e 4. da comunidade. Trata-se de uma área onde uma Operação Urbana pode ser utilizada como instrumento para que o setor privado usufrua o potencial construtivo de sua propriedade, levando em consideração os interesses do setor público e da comunidade diretamente envolvida (no caso, a Vila JK).
Pelo Tombamento da Serra do Curral, fica explícita a intenção do poder público em vetar a construção nessa grande área tombada, toda ela pertencente à Mineração Lagoa Seca. Entretanto, a área considerada ARE3 (Área de Recuperação 3, ver mapa), por já estar degradada, é passível de ocupação. Sendo essa região uma das mais valorizadas para empreendimentos de luxo na zona sul, a mineração reivindicará a transferência do direito de construir das áreas não-degradas da Serra para a área degradada (ARE3). Essa transferência terá que obedecer a critérios não definidos por lei, daí a utilização de uma Operação Urbana como recurso para negociar esses critérios. É aqui que poderemos então entrar com a O. U. como um mecanismo capaz de equilibrar os interesses da prefeitura, da mineração, da favela e o dos ambientalistas.

Operação Urbana
A Operação Urbana poderá ser pensada de duas formas. A primeira delas concentra todo o potencial construtivo da mineração em uma só área (proposta 2, alta densidade). Esta coincide com o aterro de estéril junto ao bairro Belvedere. Nesta primeira hipótese, a densidade será alta, mas toda a área restante da Serra seria liberada como um Parque Urbano de uso público. Para construir o empreendimento privado (concentrado no projeto 1 - Centro Empresarial), os empreendedores deverão patrocinar compensações a serem dadas para a prefeitura (projeto 2) e a favela (projetos 3 e 4).
A segunda densidade (proposta 1, baixa densidade) propõe uma ocupação bem mais esparsa. A área para equipamentos privados estaria espalhada ao longo de uma área bem maior, e consequentemente a área do Parque Urbano seria menor.
Em ambos os casos, o novo Parque Urbano seria uma continuação do existente Parque das Mangabeiras, o que deixaria Belo Horizonte com uma enorme rede de parques articulados.

Projeto 1: Complexo Hoteleiro + Centro de Convenções + Condomínios Residenciais
Uma análise das várias zonas do tombamento da Serra leva a concentrar a inserção de equipamentos privados na área hoje definida pelo aterro de estéril da Mineração Lagoa Seca. Essa área foi escolhida por ter algumas prerrogativas: é uma área que exige tratamento paisagístico e recuperação ambiental, tem topografia adequada (plana), está em cota baixa o suficiente para que as novas construções não interfiram nas visadas do perfil da Serra, e tem acesso fácil pelos bairros Sion e Belvedere I. Em outras palavras, é uma área passível de ocupação exatamente por ser uma área de paisagem degradada e artificial. Um programa para essa área poderá incluir um hotel, um centro de convenções, um parque de exposições (equipamentos faltantes e necessários a uma cidade de serviços como Belo Horizonte) e condomínios residenciais. Nesse caso, o potencial construtivo das áreas não degradadas (APR2 e AP no mapa de tombamento da Serra) seria transferido para a área desse aterro.

Projeto 2: Centro Ambiental da Cava
A contrapartida dessa ocupação privada, de média ou alta densidade (ver mapa Proposta 1 e Proposta 2), poderia vir sob a forma de equipamentos públicos para o já mencionado Parque Público da Serra do Curral. Toda a área de tombamento - com exceção da área do item anterior - poderia ser transformada em área pública. E os custos dos equipamentos públicos deste Projeto 2 seriam incluídos na contrapartida exigida para a implantação dos equipamentos privados do Projeto 1. Além disso, a construção de um Centro de Educação Ambiental possibilitaria o aproveitamento inusitado de um acidente topográfico espetacular e também a readequação ambiental do local mais degradado de toda a área da Serra.

Projeto 3: Bólido da Saúde
Concebemos também um equipamento capaz de solucionar o problema de acesso aos níveis mais altos e menos acessíveis das favelas assentadas sobre morros, como é o caso da Vila JK. O bólido proposto terá como vantagem a escalada de becos e ruas a fim de levar serviços básicos ambulatoriais para os moradores dos aglomerados que não podem descer até as áreas mais baixas. Uma espécie de maca equipada com serviços básicos de enfermaria se encaixa em um container, adaptado como clínica odontológica e ginecológica.

Projeto 4: Praça Acaba Mundo
Um terreno entre a favela e o bairro Sion poderá ser uma área pública com serviços para a comunidade da Vila JK. Assim, esta encosta se transformará em espaço público marcado com equipamentos capazes de articular melhor a Praça JK, a rua Correas e a própria favela.