O impasse entre a necessidade de uma grande velocidade e de tempos reduzidos, vista a transnacionalização dos fluxos de capitais e o esvaziamento material do território da cidade, por um lado, e o tempo das pequenas práticas cotidianas locais, conectadas a rotinas culturais enraizadas no lugar, por outro, fazem surgir novos topos na implodida cidade. O encapsulamento do habitante da cidade em sua própria casa, quando não no próprio quarto ou no hard drive de seu computador pessoal, paradoxaliza-se frente à possibilidade de conexão sincrônica desse mesmo habitante da cidade com o restante do mundo através das novas tecnologias informacionais, essas em constante e infreável avanço. De privado corporalizado, o corpo é jogado e ressignificado numa teia de relações públicas e de fácil acesso.
Nesse mesmo momento, teorias não se consolidam mais como verdades objetivas e indiscutíveis, mas como hipóteses passíveis de questionamentos e provações pela experiência do/no mundo real pelo homem. A ciência volta o olhar para si mesma a fim de repensar uma inexatidão intrínseca à sua própria formação. A ciência, da certeza e exatidão, retrabalha-se como campo de conhecimento que incorpora o sujeito pesquisador e seu olhar, ao mesmo tempo espectador e criador sobre as coisas do mundo.
Se para se cartografar as mudanças advindas de uma globalização e de outros fenômenos eminentemente urbanos e contemporâneos, um olhar pragmático, portanto baseado no real, faz-se necessário, pergunta-se: de que real está a se falar? Portanto a pergunta se desloca, abarcando não somente o que, mas quem e onde, a fim de localizar e dimensionar esse real. São colocadas novas perguntas à tarefa da compreensão da cidade: de onde se percebe tal estado das coisas? Através de que meios se percebe? Como e por onde se discute tal nova percepção? Quem percebe? O que se percebe?
Por esses questionamentos, a produção estrutural e superestrutural da cidade aparece e é redimensionada na discussão sobre o ambiente urbano e suas novas geografias [des]territorializadas, a partir de novos paradigmas. De dados reais e irrefutáveis, a cidade é reaprendida e reapresentada através de dados complementares, parciais e inesgotáveis na produção de um novo conhecimento sobre o espaço produzido e vivido socialmente na urbanidade, localizados flutuantes entre os lugares e não lugares de Augè. Nessa crítica se instala um novo paradigma: o sujeito [observador, pesquisador e/ou participante].
Para tal vida urbana calcada dialeticamente entre o espaço abstrato dos fluxos de informação e capital e no espaço vivenciado do cotidiano dos habitantes da cidade, a investigação de uma nova cartografia se faz primordial no sentido de dar uma linha de compreensão básica da formação dinâmica dos territórios na contemporaneidade, se responsabilizando pela construção de uma ponte entre essas duas realidades aparentemente díspares. Significa corporalizar, dando existência real e concreta à experiência do viver na sociedade urbana, mesmo que seja através de uma tela de computador, um iPod, ou na varanda de sua própria casa. Descortinar o real através da própria experiência.
Para tal corporalização, investigar novas formas de cartografia do território e de representação de suas questões dinâmicas significa se desprender de um formalismo epistemológico característico de uma modernidade onde a visibilidade e a concretude dos fatos ainda não tinha sido transformada totalmente pelo impacto de novas tecnologias e o advento da importância da informação [abstratamente circunscrita] como dado influenciador do espaço concretamente vivido, e apoiar-se em uma síntese histórico-geográfica dialética representativa de relações e processos invisíveis presentes nessa realidade aparente. Esse significado de síntese se desloca do ajuntamento incessante de materiais [dados] para uma noção de conjunto incompleto de materiais, e por isso mesmo sempre disponível a atualizações, novas configurações e [re]construções, formados a partir de uma abordagem crítica e cujo fim é uma operacionalidade.
Daí, uma cartografia que seja ao mesmo tempo um novo olhar sobre o espaço e um apontamento para a formulação de novos procedimentos que articulem uma mecânica de procedimentos de “como” e “de onde” se olha esse mesmo espaço. Nessa operacionalização cartográfica, os procedimentos adotados se colocam como a base cientificista de onde as informações são obtidas e abertamente manipuladas, sempre passíveis de incorporar a desordem e a inexatidão.
Redimensionando-se a cartografia para além do real e da lógica, mas a partir desses mesmos conceitos como base a fim de localizar o sujeito que olha e porque olha, surgem então as perguntas: Qual é o impacto das novas tecnologias informacionais e infra-estruturais na vida urbana? Como tais impactos se relacionam? Como se espacializam? Como cartografar essa rede de acessos e espacialidades circunstanciais em formação? Quais possibilidades espaciais surgem com as novas dinâmicas globais articuladas e articuladoras de localidades singulares e específicas? Como mostrar as potencialidades inerentes às diferenças territoriais situadas entre a homogeneidade do tecido urbano globalizado e articulado economicamente e a multiculturalidade produzida por essa mesma mundialização? É entre essas duas últimas compreensões da natureza espacial, vis-à-vis uma supermodernidade caracterizada pela sobreposição de lugares num só lugar, onde se instalam terceiras possibilidades de compreensão feitas a partir de um movimento interno à própria percepção do território construído, vivido e apreendido? Se o conteúdo das relações mudou, bem como as formas como elas se apresentam ao urbano, constituindo-o inclusive, qual o impacto disso na produção de dados sobre a cidade? Como articular esses novos dados às novas tecnologias informacionais? Como construir uma ponte entre quem olha e o que é olhado tomando como ponto de partida a relação que potencialmente pode ser estabelecida pelo meio cartográfico? Se é meio, quais são as novas mídias que se abrem como possibilitadoras e não apenas apresentadoras? Quais os procedimentos? A cidade é só o que se vê?

Frederico Canuto

15 MINUTOS: sistema operativo para uma cartografia temporal

Um sistema operacional que utiliza a fotografia digital como forma de registro temporal. Partimos da hipótese de que a variável tempo tem se tornado um sistema de medida espacial mais relevante que a própria distância física e que esta inversão espaço-temporal influencia de forma definitiva a produção do espaço contemporâneo. Colocada a questão de tal maneira, procuramos inserir a dimensão tempo na representação do espaço.
A fotografia digital passa a ser o dispositivo que permite a manipulação da velocidade do registro assim como da posterior exposição e tratamento da imagem como uma base de dados dinâmica aplicada à investigação do espaço. A variável tempo passa a ser controlada então pelo pesquisador: a redução da amostragem é inversamente proporcional ao intervalo dos registros. Esta capacidade de síntese vem a ser o diferencial que nos proporciona uma base cartográfica densa, mas não destituída da subjetividade do olhar por trás da imagem nem tampouco de seus atributos dinâmicos de movimento e transformação.

Ana Paula Assis
Marcelo Maia

6 r a d i c a i s

Seria possível multiplicar as ocasiões de percepção do espaço urbano atual como alternativa de melhor compreendê-lo e defini-lo? A experiência de 6 r a d i c a i s busca assumir uma postura exploratória dos sentidos que se debruçam sobre o espaço contemporâneo a partir de sua decomposição áudio-visual e sua posterior reconstrução. A multiplicação das possibilidades de apreensão espacial proporcionada pelas novas tecnologias digitais vem impulsionando outras vertentes críticas da arquitetura sintonizadas com uma problematização da forma de registro das diferentes categorias espaciais que se atualizam na paisagem urbana contemporânea. Uma tentativa de submergir nos processos mais intrínsecos de constituição deste espaço a partir do entendimento das experiências cotidianas e das situações urbanas particulares por elas geradas.
A necessidade de deslocamentos críticos que permitam avaliar possíveis novas definições para esta composição superposta e difusa do espaço urbano atual, além das ausências de limites precisos e de relações cada vez menores de contigüidade social servem de combustível para a realização desta interface interativa.
Esta interface busca afetar e desconstruir nossa visão da realidade aparente, tornando-a apenas fragmentos. A reconstrução destes resquícios de paisagens e sonoridades urbanas busca tentar restituir um tipo de apresentação que dialogue com o seu próprio tempo e espaço, encarnado na realidade que nos cerca.

Bruno Massara

Terraço-varanda

Dentre as tipologias arquitetônicas do Vale do Aço, o terraço-varanda desperta interesse por suas características formais, pela solução térmica ao calor da região, pelo recurso contra trincas na laje e por suas potencialidades de uso.
Caracteriza-se por um espaço coberto coroando a edificação e congregando características tanto de varanda quanto de terraço. Bastante comum nas periferias das cidades brasileiras, no Vale do Aço a sua presença é notável em bairros de diversos níveis sociais, em edificações residenciais ou comerciais, verticais ou horizontais. Apresentam estrutura em madeira, concreto ou aço e telhas em amianto, metálicas ou cerâmicas. Quase sempre esse “terraço coberto” contrasta com o conjunto: as colunas no perímetro da edificação suportam uma cobertura que parece planar, pois geralmente esses espaços não têm paredes.
Tal solução areja o pavimento inferior, mas o pé-direito baixo e a falta de isolamento térmico e acústico nem sempre condicionam o terraço-varanda para usos prolongados. Ainda assim é utilizado para eventos como lavanderia, depósito, oficina de arte, ginástica, descanso, festas, cozinha e criação de pequenos animais, potencializados pela ventilação e amplidão.
O mapeamento dessa arquitetura informal e criativa sugere possibilidades de intervenção arquitetônica na cidade, pois a sua profusão e proximidade permitem a sua conectividade.

Isa Helena Tibúrcio
Lourival Pacheco

MUSEU TEMPORÁRIO

Caminhando no centro de Coronel Fabriciano (MG), encontramos sapateiros, chaveiros, alfaiates, relojoeiros, costureiras, consertadores: sujeitos habilidosos, detentores de um saber que é da ordem da desaceleração e da permanência. Carregam ofícios que resistem à massificação do consumo descartável. A experiência do contato cotidiano e da interação com essa superfície dimensiona outras perspectivas de mapeamento. A temporalidade dos ofícios em extinção, ameaçados pela obsolescência de tudo, não é encontrada nas noções de fluxo global. Tampouco é vista nas representações geométricas de ruas, bairros, cidades. A proposta do Museu Temporário baseia-se na apropriação da cidade através da experiência das suas pequenas histórias. A pesquisa gera o convívio do intruso com os sujeitos que constroem os dias e as suas relações. O Museu, então, consiste numa rede de intervenções espaciais efêmeras nesses espaços comerciais interiores. Trabalhamos assim a ambivalência do Museu Temporário: exposição no esforço de captura estática do tempo e do espaço, mas também experiência singular e contingente dos passantes; a emergência de histórias silenciosas reconstruídas e devolvidas à cidade, produzindo uma deformação no espaço através de lentes discretas. Esse mapeamento propositivo, inserido no espaço real, fomenta a lembrança de mapas particulares, para além da vida utilitarista, remodelando o aparentemente familiar.

Alexandre Campos
Renata Marquez