Amnésias Topográficas

1
A paisagem das grandes cidades é composta por muitos elementos residuais. Regiões vacantes, vazios sub-utilizados e terrenos baldios configuram áreas abertas e sujeitas às pressões econômicas e sociais que produzem a cidade. Áreas vizinhas a ferrovias, regiões desindustrializadas, centros históricos em declínio, portos desativados – todos vêm se transformando num imenso manancial propício para megaintervenções, uma tendência mundial que tem gerado várias formas de revitalizações e transformações urbanas. Amnésias Topográficas, no entanto, é um projeto que procura estender as estratégias de projeto nesses locais, buscando mostrar tanto os limites das intervenções convencionais quanto as possibilidades de intervenções efêmeras.

2
Os prédios do Buritis, um bairro montanhoso na zona sul de Belo Horizonte, só podem contar com quatro pavimentos, ficando sem qualquer utilização as estruturas em terreno de declive acentuado - o que forma as assim chamadas palafitas (ou “paliteiros”) sob os prédios. Como conseqüência da rigidez da Lei de Uso e Ocupação do Solo (que então não permitia prédios com mais de quatro pavimentos), construções onde as palafitas têm a mesma altura ou mesmo são mais altas que o prédio que sustentam são elementos comuns naquela paisagem. Lançado para o mercado imobiliário no início da década de noventa, em seis anos todos os morros desse bairro antes marcados por uma palmeira típica do cerrado – o buriti –, foram rapidamente ocupados por prédios caracterizados pela uniformidade volumétrica, pela falta de uma melhor relação terreno-projeto, pela mesmice e sobretudo pela falta de imaginação de seus arquitetos.

3
Os pilotis desses prédios são como plataformas que dividem dois espaços absolutamente desconexos: abaixo, um labirinto de pilares de concreto; acima, apartamentos classe média. E no meio, os pilotis que funcionam como garagem e/ou área de lazer. São prédios com uma única estrutura em um único lote em um mesmo imóvel, porém gerando duas possibilidades de ocupação independentes, radicalmente separadas e espelhadas pelos pilotis.

4
Uma dessas ocupações está determinada (os apartamentos); a outra encontra-se espantosamente em aberto. É evidente que o potencial arquitetônico desses prédios está precisamente nessa organização atípica, na lógica de assentamento das Amnésias Topográficas, nessa surpresa gerada por um acidente arquitetônico. Ora, o labirinto formado pela seqüência das palafitas de concreto, a natureza explicitamente residual desses labirintos e a uniformidade dos prédios suportados pelas palafitas conformam, todos eles, um potencial que é inversamente proporcional à qualidade arquitetônica desses objetos. Terrenos acidentados são vencidos através de uma malha sincopada de pilares e vigas, cintas e contraventamentos que, juntos, materializam fantasias arquitetônicas. São espaços piranesianos não idealizados por arquitetos; produtos de calculistas que jamais imaginaram o espaço que projetaram; surpresas espaciais que nunca acontecem no mundo previsível da arquitetura.

5
Duas coisas marcam a esquizofrênica identidade visual desse bairro: as palafitas e a mata atlântica sobre as encostas. Grandes áreas verdes permeiam os prédios palafitados. A topografia do bairro é tão montanhosa que partes de muitos quarteirões não puderam ser loteadas. É por isso que várias reservas naturais são vizinhas às sequências de palafitas; reservas estas que não são parte do plano urbano do bairro e tampouco foram uma exigência legal para equilibrar a quantidade de área verde por habitante – elas são simplesmente uma consequência topográfica. São manchas verdes isoladas e totalmente inacessíveis por causa da declividade e da fileira de palafitas que as protege e as isola de todo contato com as ruas e com os próprios prédios.

6
Na arquitetura moderna, o pilotis dos edifícios foi concebido como um elemento que permitiria soltar o edifício do terreno, liberando no térreo uma área aberta, coberta, geralmente contígua a áreas verdes e úteis como play-ground, local de eventos, etc. “Que a casa seja suspensa por estacas, que se erga no ar, que o jardim penetre debaixo da casa”. Dessa forma os pilotis permitiriam uma continuidade do parque ao redor dos prédios ou das casas. Brasília e suas super-quadras são uma ótima tradução desse elemento, sendo que seus blocos residenciais permitem o livre caminhar pelas super-quadras por estarem sempre apoiados sobre pilotis. Por mais geométricos e duros que sejam, esses prédios procuram ser permeáveis e penetráveis pelo público, integrados que estão na vegetação rala das superquadras.

7
No caso de Amnésias Topográficas, é como se o pilotis tivesse sofrido uma mutação, resultado de um tumor (maligno?): no lugar deste, as palafitas fazem a conexão arquitetura-natureza. Com algumas semelhanças: ambos servem para separar os prédios da natureza e do contato direto com o terreno. E com diferenças fundamentais, também: ao contrário dos pilotis, que em princípio servem para integrar os prédios e moradores nas áreas verdes, as palafitas mantêm a natureza como algo inatingível. No final, os dois principais elementos do bairro (matas e palafitas), ambos de uma beleza espetacular (ainda que um espetáculo despercebido), ironicamente não são acessíveis nem para moradores e nem para a comunidade em geral.

8
Invento para Leonardo, peça do grupo de teatro Armatrux, foi a primeira transformação desse resíduo em palco de um espetáculo. Partimos então de algo existente - uma estrutura arquitetônica ordinária e agressiva - que se transformou em matéria plástica espacial. Prédios vizinhos aqui se tornam uma única e contígua estrutura de concreto aparente; um continuum de vigas e pilares prontos para receber qualquer função. No palco do espetáculo, passarelas de madeira, escadas, rampas e plataformas possibilitaram o uso extensivo das palafitas em diversos níveis pelos atores. O público ficou acomodado em uma arquibancada tubular desmontável, que transformou o lote vago nos fundos das palafitas em platéia do espetáculo. A situação da platéia nesse lote vago com dois prédios de apartamentos vizinhos (um à direita e outro à esquerda), além das palafitas no fundo, criou uma outra relação entre espectadores, palco e cidade. Simultaneamente à apresentação da peça, os prédios vizinhos apresentavam cenas cotidianas que se tornaram públicas: famílias jantando, tomando banho, conversando, dormindo e, eventualmente, assistindo à peça de suas janelas.

9
O espetáculo possibilitou também uma inversão no quadro de privatização dos espaços da cidade. Em um país de cidades cada vez menos públicas e mais violentas – um país onde a cidade é vista cada vez mais como um inimigo ou ao menos como um obstáculo entre a casa e o trabalho –, o projeto funcionou como um urbanismo efêmero que mostra os desequilíbrios urbanos de uma forma sem precedentes. Nesse sentido, Armatrux foi um fator crucial nesta investigação: ao contratar-nos para a escolha do local para uma nova peça, o grupo com tradição de teatro de rua estendeu a pesquisa do teatro para a pesquisa de novos conceitos de rua.

10
A segunda intervenção ocorreu em 2004, quando grandes volumes de plantas comuns e vulgares invadiram as palafitas definitivamente. Amnésias Topográficas II, última intervenção com o grupo Armatrux, esteve marcada por jardins suspensos, plataformas de madeira, escadas, rampas e uma grande superfície de fibra de côco que revestiu toda a encosta das palafitas. Uma seqüência de palafitas contíguas passou a ser penetrável por meio de várias passarelas que permeiam dois prédios e terminam quatro andares acima do nível de acesso, que é um lote vago nos fundos das palafitas. Não mais a separação entre platéia e público: o projeto Amnésias II mistura público e privado, atores e audiência, e usa as passarelas de circulação do público como local de apresentação e encenação.

11
A tela de fibra de côco (da Deflor Bioengenharia) foi mais que uma simples indutora de uma nova cobertura vegetal das palafitas. Ela transformou aquela paisagem (antes) de escombros, entulho, ratos e escorpiões em uma topografia cenográfica, abraçando toda a encosta sem deixar nenhum centímetro de terra ou lixo à vista até descer lote abaixo, ocupando todo o terreno dos fundos como se fosse um tapete de gramíneas pervagante e onipresente. Toda a superfície do solo foi embrulhada pela tela; todo o entulho foi removido e/ou escondido pela superfície invasora da tela, e tudo ficou como morros côncavos e convexos de fibra de coco.

12
A semente que foi plantada com a tela foi a aveia, uma gramínea de crescimento rápido e ideal para o evento nas palafitas. Azevém, braquiara, arroz e alpiste são as outras gramíneas que compõem o mix de matos da tela de côco. Assim, o aspecto de “por fazer” das palafitas foi modificado a partir de plantas típicas dos campos agrícolas.

13
Mas além dessa superfície agrícola, os capins também subiram pelas vigas e cintas para então ganhar as alturas palafitadas. Caixas de madeira ruim, as mesmas usadas para transportar frutas, foram usadas para plantar mais capins fora das palafitas. Foram 180 caixas com mais ou menos 28 mudas em cada (ou 5.040 mudas), ocupando uma área de 100 m2 e apoiadas sobre perfis “I” (Usilight série VE, da Usiminas). Cada muda foi plantada em saquinhos de plástico preto de 8cm de diâmetro, e com terra adubada o suficiente para que todas as plantas daninhas crescessem em tempo recorde. Alpiste e o milho – capins sabidamente rápidos – cresceram mais ou menos 50cm com apenas um mês de vida. Arroz e capim meloso, um pouco mais lentos, foram importantes para gerar variações de textura e tonalidades (têm verdes mais claros), além de provocar interessantes nuances volumétricas no matagal suspenso.

14
Algumas plantas invasoras e/ou comestíveis levadas para as palafitas: azevém (Lolium multiflorum), aveia (Bromus catharticus), arrozinho (Luziola peruviana), braquiara (Brachiara decumbens) e capim meloso (Melinis minutiflora), além de alpiste, painço, e milho.

15
Na data do início do espetáculo teatral os capins turbinados já haviam crescido mais do que o previsto. O sol esturricante de outubro e as chuvas caudalosas de novembro fizeram as plantas crescer muito mais que capim. Plantados numa flora (Terra Boa Paisagens) e depois transportados para as palafitas, a umidade do local fez com que os caixotes com capins permanecessem viçosos e exuberantes por muitas semanas, mesmo com a luminosidade infinitamente menor dos labirintos das Amnésias. A tela de coco lentamente se transformou em uma penugem de mudas recém-brotadas nas profundezas das palafitas menos; nas áreas próximas do sol, mais – passando dos tons de marron para uma superfície de verdes esparsos e concentrados em tufos. Quase cem madeirites 110x220cm foram usados na confecção das passarelas, além de vários metros lineares de peças de madeira 15x6, centenas de metros lineares de peças 6x6 e 27x6, 200 parafusos 3/8 x 5” e dez kilos de pregos – totalizando uma área palco-platéia de 250m², além dos 100m² de capins suspensos apoiados em perfis Usilight.

16
“Pessoas em busca de um lugar. De alguém. De uma condição ideal. São peças submersas de um jogo cotidiano marcado pela solidão e boas doses de prazer. O tempo é uma questão de ponto de vista. E em cada ponto do caminho uma história diferente. O concreto é falso e a realidade é dura como um papel. O seu. E o deles.”
Nômades, um drama sobre a solidão e a esperança do Grupo Armatrux, é um diálogo com as contradições e ambigüidades expostas na intervenção Amnésias Topográficas II. Começando o espetáculo na rua, homem-cone, mulher-das-caixas, homem-cabeça, e mulher-da-TV trazem a platéia para as Amnésias e percorrem as passarelas lentamente, fazendo comentários sobre o espaço do evento e terminando a cena em meio ao público, no quarto e último andar do palco-platéia.

Carlos M. Teixeira