11 construções de emergência

Onze Construções de Emergência para os Arquitetos dos Próximos Dias, ou Por uma Arquitetura Menor, ou De uma Arquitetura da Luz, ou Uma Menor Utopia.
Foram tantos títulos durante longos e vários anos, junto às referências literárias de que me aproprio e utilizo e foi fundamental para a Arquitetura buscá-las na Literatura. Pequenos edifícios, pequenas atitudes arquitetônicas, pequenas tentativas de responder a cada uma dessas construções de emergência.

Emergência 1: o sombreamento.
O que é o sombreamento? “Entre o homem e a luz explicitante do divino, a Arquitetura é exatamente esse meio, é essa carne, é um instrumento como que feito de músculo, sangue e epiderme, é uma nuvem, essa nuvem, essa sombra, essa tinta que nos protege. E para o homem que veio depois do criador, os deuses não devem permanecer sem teto e as almas sem proteção, massas de mármore não devem permanecer mortalmente sobre a terra”. Isso é do Paul Valery, em Eupalinos, o Arquiteto.

Emergência 2: a mediocridade.

Acho que encarar e aceitar essa falibilidade, essa tortuosidade, é fundamental para que possamos fazer e nomear tudo aquilo que chamamos de Arquitetura. E, nesse sentido, é muito importante aceitar e nomear essas questões, porque precisamos combater uma certa cegueira que nos assola.

Emergência 3: a permanência.
Perguntado Wim Wenders sobre a semelhança entre fazer Cinema e fazer Arquitetura, ele respondeu que ambos buscam formas de como se deveria viver. Ele diz que “Na arquitetura se coloca essa questão de um modo muito mais concreto, a mais largo prazo. Em arquitetura, pergunta e resposta formam uma unidade na qual a resposta é uma e para toda a vida. No cinema, graças a Deus, não é este o caso, e cada um pode sair da sala de exibição quando quiser”.

Emergência 4: a unicidade e o acoplamento.
“Cortem a cabeça, gritou a Rainha, que só tinha este meio de remover todas as dificuldades. Eu mesmo vou buscar o carrasco, disse o Rei avidamente. Ao retornar para junto do gato que se mostrava apenas por uma cabeça sem o restante do corpo, Alice se surpreendeu de ver que o Rei e a Rainha falavam ao mesmo tempo em acalourada discussão. O ponto de vista do Carrasco era que não se podia cortar uma cabeça que não estava presa a um corpo. Nunca fizera tal coisa antes e não iria começar a essa altura de sua vida. O ponto de vista do Rei era de que qualquer um que tivesse cabeça, podia ser decapitado, e tudo mais era disparate. O ponto de vista da Rainha era de que, se não resolvessem já alguma coisa, ela mandaria executar todo mundo em volta”.
A arquitetura tem esse caráter de unicidade, de acoplamento com o contexto ao qual ela se insere. Não dá para fazer esse julgamento, a arquitetura é injulgável, cabeça e corpo é uma coisa só.

Emergência 5: o pesadume e a lerdeza.
Arquitetura é algo que pesa, e pesa como pesa o mundo e, de certa forma, Arquitetura diz desse drama do envelhecer, do enfeiar próprio a tudo aquilo que pesa e que lerda diante de uma ação natural do tempo. E nesse pesar, nesse atestado dos estragos que a gente ganha com a idade, ela anuncia o tempo que passa e, dessa forma, com essas construções viajadas no mundo e no tempo, é que nos protegemos, nos sentimos aliviados do medo de que o mundo possa se acabar pela manhã.

Emergência 6: a precisão.
“A precisão necessária, do verbo precisar, é a exatidão no preciso do ato que separa o aqui do ali”. Essas são citações de Marguerite Duras, num trecho do livro “Escrever”, quando ela foi encomendada para fazer um livro sobre a sua escrita e, por incrível que pareça, ela só falou de sua casa o tempo todo.
Uma banda ensaiava, em Itabirito, dentro de uma construção que existia, produzida por eles. Certa vez o maestro nos abordou na rua e disse que essa banda era muito antiga em Itabirito, chamada de Banda Velha, e os músicos todos muito velhos. Ele estava com um problema sério, os músicos estavam todos ficando surdos, porque ensaiavam dentro desse espaço que não tinha nenhum preparo para se ensaiar uma banda e começam a tocar cada vez mais alto.
E aí essa encomenda, diante de um espaço que fora construído por eles e que permaneceu como era, e sem dinheiro nenhum, era uma banda pobre. Tentamos levantar o que existia à disposição para se fazer alguma coisa com relação à surdez dos músicos. E existia a dona Maria, esposa de um trompetista, que fazia esteira de taquara; tinha outra esposa que era costureira; tinha um que era serralheiro; outro trabalhava com chapa e, ajuntando tudo isso, foram feitas esteiras de taquara, onduladas de acordo com a posição dos instrumentos no ensaio da banda, e feitas com um certo intervalo entre a trama que, quando a onda sonora atravessa, ela amplifica, de certa forma, igual à onda sonora e, quando rebate no teto, já volta maior. Essa esteira funciona como algo que prende essa onda sonora, e aí limpou o som dentro do espaço. O anteparo curvo funciona numa elipse em que convergem dois pontos para a posição em que o maestro se encontra, na frente, protegendo o fundo, que é cheio de recortes, e realmente limpando e quebrando com sobreposições de ondas o som dentro da banda.
Foi um projeto muito feliz. O maestro, pouco tempo depois, veio me dizer que tinha instrumentos que nunca havia escutado num ensaio e que estava escutando pela primeira vez. E uma outra situação curiosa, foi uma vizinha, cliente nossa, que morava ao lado da banda, e que, num domingo às 11h da manhã, ligou agradecendo muito, porque normalmente acordava às 8h da manhã, quando começava o ensaio da banda, e, nesse domingo, acordou às 11h, a banda estava lá, ensaiando, e ela pode dormir.

Emergência 7: a rugosidade e o esfolamento.
“O fragmentário pedaço crava suas raízes mais profundamente em nossa memória que o completo. O fragmento tem uma superfície rugosa onde nossa memória pode se agarrar. Na superfície lisa do completo, a memória escorrega”. Isso no “Ofício do Verso”, de Jorge Luís Borges.
Acho que na Arquitetura tem-se, talvez, a origem dessa textura, desse atrito, dos quais se constitui a ponte para a relação possível com o outro e com o outro tempo. É ela quem nos anuncia a qualidade rugosa que nos ancora, que dá sustentação aos nossos referenciais particularmente memoráveis, como aqui dizer que sim, existimos e estamos aqui juntos. É quem nos oferta esse relar que nos esfola, que nos garante que juntos estamos aqui.

Emergência 8: o abrigamento.
“O que a construção significa para mim? Pertencemos um ao outro de tal modo que poderia me instalar tranqüilamente aqui sossegado em meio a toda minha angústia”, que é um conto, fantástico, do Kafka, que se chama “A Construção”, e é a narrativa de uma construção eterna, de uma toca, de uma habitação por um ser que se esfola o tempo toda contra essa construção à procura desse abrigamento que, acho, só a Arquitetura pode nos ofertar.

Emergência 9: a grudadura.
A arquitetura fala desse drama, arquitetura é essa prega, esse fluxo contínuo entre aquele que habita e o mundo suporte dessa habitação, é um líquido denso que preenche cada nesga desse abismo, cada empecilho ao estabelecer o preciso do homem. Arquitetura diz dessa grudadura que garante esse drama, que garante esse contato com o mundo.

Emergência 10: a invenção e a violação.
“O vazio do imaginário jamais equivale ao pleno do percebido. O perceber o olhar não é um eco de um passado, é antes o inverso, é a explosão de uma nova coisa. Destruição e criação é um fato só.” Isso é Merleau-Ponty, “Visível e Invisível”.
Uma lâmpada se fazendo um candeeiro, que tive oportunidade de comprar na Feira de São Joaquim, mas que a Lina já recolheu nos tempos de grossura. E é essa invenção que é necessária e a Arquitetura permite o tempo todo, sempre se fazendo nova, a cada intervenção, a cada apropriação pelo outro.
E aí um projeto que venho desenvolvendo com outras pessoas que é o mobiliário que se faz a partir de coisas que existem. Incorporar barras rosqueadas com, às vezes, restos de armários de bar, gavetas que se compram em quaisquer lojas dessas de embalagens, restos de madeira ajuntadas com elementos que existem, e fazendo eternamente, essa invenção e possibilitando novas apropriações e novos usos dessas coisas.

Emergência 11: o probabilístico e o faltoso.
“Contrariamente à linguagem comunicativa, econômica, causal, linear, reduzida a sua funcionalidade, Arquitetura é da ordem do espaço barroco, nodoso, tumoral, verrugoso. É o espaço da superabundância e do desperdício, variações sobre a totalidade da obra que coroa e destrona, ensina, deforma, duplica, inverte, despe, sobrecarrega, desejando preencher todo o vazio, todo o infinito disponível, um trajeto em redor do que falta e cuja falta o constitui”. Isso é de um livro do Severo Sardui, que se chama “Escrito sobre um Corpo” e é um capítulo em que ele fala de “Por uma Ética do Desperdício”, e que diz com muita precisão dessa coisa que é a Arquitetura, que é para mim, talvez, sempre barroca, esse desperdício, essa super abundância.

Adriano Mattos Corrêa